Destaque em 2024, PIB pode perder o fôlego neste ano

O crescimento de 3,4% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2024 divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na semana passada, foi o melhor registrado desde 2021, mas apresentou uma surpresa no último trimestre, quando o avanço de 0,2% foi menor do que o esperado pelo mercado. A mediana das estimativas previa uma variação de 0,4% de outubro a dezembro, em relação aos três meses anteriores. Por isso, a desaceleração antecipada acendeu mais um alerta para a atividade econômica deste ano.

Os principais motores do crescimento de 2024, o consumo das famílias e os investimentos, do lado da demanda, e os serviços e a indústria, do lado da oferta, não terão a mesma força e deram sinais de enfraquecimento no último trimestre do ano passado, de acordo com os analistas. Eles apontam riscos relacionados com a perspectiva desse baixo crescimento em curso, uma vez que o governo tende a adotar novas medidas para estimular o consumo ou gastar mais para turbinar a atividade que podem desequilibrar ainda mais as contas públicas e a aumentar a dívida pública bruta em relação ao PIB.

As revisões de projeções para baixo do PIB de 2025 começaram e as novas estimativas são inferiores à mediana das perspectivas atuais, de 2%, e o consenso dos analistas é que o destaque voltará a ser a agropecuária, como em 2023, devido à perspectiva de safra recorde neste ano. Contudo, segundo eles, a contribuição da agricultura no PIB ainda é se comparado com outros componentes, pois encolheu de 6,9% para 6,5% entre 2023 e 2024.

Enquanto isso, o peso dos impostos sobre produtos apresentou variação acima dos outros indicadores, passando de 14,5% para 16% na mesma base de comparação, refletindo os recordes mensais de arrecadação da Receita Federal, mas que não foram suficientes para zerar o rombo das contas públicas — risco que segue no radar no mercado.

Pelos cálculos dos economistas, o bom desempenho do PIB em 2024 implica um carregamento estatístico de 0,8% na atividade econômica de 2025. Com isso, eles reforçaram que a expansão do PIB deverá ser restrita, em torno de 1%, na melhor das hipóteses. O economista Alberto Ramos, do banco norte-americano Goldman Sachs, por exemplo, logo após a divulgação dos dados das contas nacionais, revisou de 2,1% para 1,7% a previsão de crescimento econômico do país neste ano. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, destacou que a desaceleração da atividade econômica sinaliza um crescimento entre 1,5% e 2%.

“A visão geral é de um PIB que foi forte no passado e teve um crescimento bastante importante em termos de consumo e investimento. Mas começou a desacelerar no quarto trimestre, já dando essa sinalização de que a economia está enfraquecendo”, alerta Sergio Vale.

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, também está refazendo os cálculos e não descarta dois trimestres de PIB negativo na segunda metade de 2025, uma vez que os impactos da política monetária do Banco Central, que iniciou o aumento dos juros em setembro, tendem a serem defasados e devem ter um impacto maior no terceiro e no quarto trimestre deste ano. “Houve uma desaceleração mais forte do que o esperado no último trimestre de 2024 e não descartamos dois trimestres com PIB negativo no segundo semestre deste ano”, afirma.

Apesar de o Brasil ter registrado expansão acima da média global em 2024, de 3,2%, o desempenho do PIB brasileiro ficou abaixo da média dos países do grupo de países emergentes do Brics, de 5%. Conforme levantamento da Austin Rating, em dólares, o PIB brasileiro atingiu US$ 2,179 trilhões, colocando o país na 10ª colocação entre as maiores economias do planeta, dois degraus abaixo da posição anterior.

“O crescimento do PIB foi bom para o nível do Brasil, mas o país ainda registrou crescimento abaixo de países do Sudeste Asiático, como a China, de 5%, e a Índia, de 6,5%. Isso significa que o Brasil continua perdendo investimento para essas nações”, comparou Alex Agostini, economista-chefe da Austin.

Segundo ele, o resultado foi mais robusto do que o inicialmente esperado pelo mercado no início de 2024, em parte, por conta da política de transferência de renda do governo e também pela valorização real do salário mínimo. Mas, devido ao maior impacto do ciclo de aumento dos juros, iniciado pelo Banco Central em setembro, neste ano, o Brasil continuará na mesma classificação global e o PIB deverá crescer apenas 1,5%, pelas projeções de Agostini.

De acordo com a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), assim como no último trimestre de 2024, a tendência é de desaceleração nos próximos trimestres e as sondagens da FGV é de piora nas expectativas sobre o futuro, especialmente com o aumento das incertezas no mercado externo, especialmente em relação às ameaças dos Estados Unidos de aplicar tarifas de reciprocidade.

“A economia está desacelerando de forma mais rápida e o aumento da instabilidade prejudica mais os investimentos no país, pois empresários não devem se sentir seguros para investirem com o atual cenário, especialmente com a perspectiva de aumento de tarifas globais. O mundo deverá crescer menos e isso é ruim para todas as economias de forma geral”, ressaltou Matos.

Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, destacou em relatório que o governo tem anunciado medidas que podem manter “algum dinamismo na economia”, como a liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para trabalhadores que foram demitidos, mas tinham aderido ao saque-aniversário, as novas regras para crédito consignado privado, e a provável aprovação da isenção do Imposto de Renda para pessoas com renda até R$ 5 mil, por exemplo.

O banco manteve a previsão de crescimento do PIB neste ano em 1,9%. As projeções para a dívida pública bruta, 80,3% do PIB neste ano, passando para 85,9% do PIB, em 2026, também foram mantidas. Leandro Ferreira, fundador e presidente da Rede Brasileira de Renda Básica, destacou que o crescimento mais robusto do PIB passa pela ampliação dos programas sociais, que vem ocorrendo desde a pandemia.

Analistas mais ortodoxos, no entanto, reforçam que o espaço para a queda dos juros está relacionado com a condução da política fiscal. Silvia Matos, do FGV Ibre, demonstra preocupação com as recentes sinalizações expansionistas do presidente Lula, que falou que tomará “atitudes mais drásticas” para conter o aumento do preço dos alimentos.

Para a especialista, esse cenário de desaceleração mais acentuada neste ano e a perspectiva de mais um ano eleitoral em 2026, tendem afazer o governo atual buscar medidas inflacionárias para estimular o consumo dasfamílias, que recuou 1% noúltimo trimestre de 2024.

“Oano de 2025 começou commensagens trocadas de autoridades do governo e como enfraquecimento políticodo ministro Haddad, o quetende a aumentar as incertezas no mercado doméstico”, afirma.

Na avaliação de Matos, a queda de popularidade do presidente tem feito o governo adotar medidas controversas e de baixo impactono combate à inflação, como a redução do Imposto deImportação (II) sobre 10 produtos, como carne, azeite e sardinha, anunciado no Palácio do Planalto sem a presença do titular da Fazenda. A economista Selene Peres Nunes, uma das autoras daLei de Responsabilidade Fiscal (LRF), engrossou o coro. As medidas são inócuas, nunca tive dúvida.

Primeiro, porque há a questão dodiagnóstico errado da inflação, da insistência em repetir políticas que semprederam errado, mas por razões ideológicas, o governo acha que tem que aumentar a dosagem do que já deu errado. Segundo, há um enorme viés contra a iniciativa privada. Uma falta de entendimento de como o câmbio afeta as decisões econômicas”, avaliou Nunes.

A especialista em contas públicas também demonstrou preocupação com as recentes declarações do presidente Lula que sinalizam queideias perigosas e que nãoderam certo no passado como tabelamento de preços.

“Lembremos que o anúncioabrange sardinha, biscoitos, macarrão. Também me preocupa ver medidas sendo adotadas sem nenhum estudo prévio, parece que o sujeitoacorda com uma ideia e resolve implementar. Então, seaumentar importação é nesses produtos em que há espaço, mas aí o câmbio tende a compensar o efeito sobrepreços”, alerta Nunes.

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